Auto-gestão guiada da asma

Auto-gestão guiada da asma:

Quando o asmático desempenha o papel principal


O objectivo de qualquer médico que tenha a seu cargo pacientes asmáticos é manter a asma controlada. Só assim os asmáticos podem levar a sua vida da forma mais natural e menos restritiva possível. A asma é uma doença crónica muito variável do ponto de vista clínico, que evolui de dia para dia e necessita de tratamento a longo prazo. Para controlar a asma, há que estar sempre alerta, ler todos os sinais, perceber com profundidade os mecanismos que estão por detrás da doença, conhecer as particularidades dos pacientes e zelar pelo cumprimento de terapêutica.

A tarefa parece difícil… O médico não está sempre com os seus pacientes, pelo que não pode acompanhar diariamente o seu estado clínico, avaliar as condições ambientais que poderão interferir com a doença e desencadear uma crise de asma, ou certificar-se de que nenhuma toma de medicação foi esquecida. Mas o doente pode… o asmático está numa posição privilegiada relativamente ao médico, pois sabe como se sente hoje, como se sentiu ontem e como se sentiu nos dias anteriores, sabe como está o tempo, sabe se tem tomado cuidadosamente a sua medicação e se há algum factor que interfira com a sua asma no local onde se encontra (como fumo de tabaco ou pólen). A conclusão é clara: só o asmático pode supervisionar a sua doença 24 sobre 24 horas.

Educar para controlar

Embora haja, actualmente, um grande conhecimento sobre a doença e seja possível, através de um tratamento adequado, minimizar o impacto da doença na vida do asmático (colocando-o lado a lado com um indivíduo saudável em termos de qualidade e vida), há em todo o Mundo indicadores de que a asma está mal controlada.

Segundo dados de um estudo internacional, 60% dos asmáticos não é capaz de avaliar correctamente a sua dispneia (falta de ar) e 40% não reage de forma adequada quando os primeiros sinais de crise asmática surgem. Os asmáticos conhecem mal a sua doença e a forma como a devem tratar.

De acordo com Marianela Vaz, presidente da Associação Portuguesa de Asmáticos (APA), “ o doente não vai ser bem tratado se ele próprio não tiver um papel activo na doença”, “ele tem de, em conjunto com o médico, controlar a sua asma”.

A auto-gestão guiada da asma (AGGA) é uma estratégia de tratamento na qual os pacientes estão capacitados para reconhecer e agir de forma apropriada quando os primeiros sinais de crise asmática surgem e para realizar, de forma autónoma, os ajustes terapêuticos, comportamentais e ambientais necessários para reequilibrar o seu estado clínico. Para além disso, a AGGA permite ajustar de forma “personalizada” a terapêutica às particularidades da rotina diária e do estilo de vida do asmático (não sendo de menosprezar que o asmático poderá também ter de alterar alguns factores do seu estilo de vida, para potenciar o sucesso da terapêutica). Esta flexibilidade da auto-gestão é tida como uma das suas mais-valias, já que torna o cumprimento do tratamento mais confortável para o doente. Tendo um programa à sua medida, o doente mais facilmento o faz e, consequentemente, o sucesso da terapêutica é substancialmente maior.

Para Marianela Vaz, “para auto-gerir a doença, é indispensável educar o asmático” que tem de ser e de sentir capaz de gerir a sua condição física, através do cumprimento de um plano previamente estabelecido e acordado com o médico responsável e que é depois gerido pelo doente.

Mas para que o asmático possa tomar a seu cargo uma quota-parte da responsabilidade na gestão da asma, tem de estar preparado. Quando médico e paciente se decidem pela adopção de um programa de auto-gestão guiada da asma, cabe ao clínico munir os seus pacientes com os conhecimentos necessários. Médico e doente têm de negociar o plano terapêutico a implementar. O asmático tem de participar activamente nas decisões terapêuticas e conhecer os sintomas e os medicamentos. “Na asma, o paciente tem de saber o que é a medicação preventiva e o que é a medicação para tratar sintomas, tem de reconhecer muito precocemente os sinais de crise asmática” – afirma Marianela Vaz. Na opinião da especialista, isto envolve um processo longo, que implica muitas horas de dialogo entre o asmático e o seu médico, mas é compensador.

A parceria médico-doente é um passo importante para conseguir controlar a asma. De facto, a auto gestão guiada da asma prevê um aumento da interactividade da relação médico-paciente. Se por um lado o paciente deve ser mais proactivo e participativo, por outro, deve saber que pode comunicar com o seu médico em caso de dúvida, através de um simples contacto. “O ideal seria que o doente tivesse uma linha verde, de forma a participar ao médico no momento o seu estado clínico e recebesse, de imediato, a resposta do especialista.” – defende Marianela Vaz.

Contudo, na opinião da presidente da APA, há outros profissionais de saúde que se devem empenhar em fomentar a educação do doente asmático. Marianela Vaz sublinha a importância do papel dos farmacêuticos: “os medicamentos para a asma têm um grau de complexidade considerável. O farmacêutico deve ensinar o doente a usar a medicação prescrita e, ao mesmo tempo, controlar o grau de adesão ao tratamento”. É importante para o asmático saber que pode confiar nestes profissionais e sentir que podem tirar algumas das suas dúvidas com eles.

Vencer as últimas dificuldades

Embora a noção de auto-gestão da saúde seja relativamente recente, os estudos de avaliação do sucesso deste tipo de estratégias de tratamento são contundentes. Numa revisão recente, em que se analisaram 22 estudos científicos que comparavam a prestação de cuidados tradicionais e a auto-gestão guiada da asma em pacientes adultos, concluiu-se que a AGGA reduziu o número de hospitalizações e visitas às urgências hospitalares, o número de visitas não planeadas ao médico e o número de dias perdidos pelos asmáticos na escola ou no trabalho.

O recurso a esta estratégia de controlo da doença, para além do inegável impacto positivo na qualidade de vida do asmático, tem repercussões económicas e sociais. Cada hospitalização sai cara ao Sistema Nacional de Saúde. Sempre que um asmático evita uma ida ao hospital por conseguir prever uma crise e controlar a doença através da adopção de medidas correctas (em termos terapêuticos e ambientais), liberta espaço nos Serviços de Urgência para emergências que não podem prevenidas. Repare-se que há estimativas que indicam que 75% das crises de asma que resultam em hospitalizações são evitáveis.

Em Portugal, a abertura dos médicos especialistas à integração dos seus pacientes nos programas de auto-gestão é elevada. Contudo, só uma minoria dos asmáticos é acompanhada regularmente por um alergologista ou um pneumologista. Na sua maioria, os asmáticos são seguidos pelos seus médicos de família.

Segundo Marianela Vaz, na Medicina Geral e Familiar não há tempo suficiente para implementar um programa destes e educar os pacientes, tornando-os capazes de o utilizar correctamente. No entanto, a responsável pela APA lembra: o site da Associação disponibiliza via web, gratuitamente, um programa de auto-monitorização da asma (PASMA). Este programa permite ao asmático inserir informações sobre o seu estado de saúde no sistema (acessível via web),. Assim, o asmático tem dados objectivos sobre a evolução da sua doença, o que poderá constituir um excelente elemento de apoio da próxima vez que consultar o médico.

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